quarta-feira, maio 17, 2006

Fritz Lang morreu, Cristo também, este blog dá as últimas...



... e eu já não me sinto lá muito bem. Criei este blog convencido de que quem gostasse de cinema gostaria de vir aqui trocar opiniões e até colaborar. Enganei-me.

Vieram uns quantos ao princípio. Como se deixaram disso, concluo que o defeito deve ser meu, por isso, como não sou onanista, vou dedicar-me a outras cousas e casos.

Fica para a história que quem Matou o blog foi O Tigre de Eschnapur e que ficará se sepultado n' O Túmulo Indiano em boa companhia. Requiscat in pacem. Amen!

terça-feira, abril 25, 2006

25 Abril Itália vs Portugal


Italia e Portugal, a mesma desgraça, maior a nossa, o mesmo combate.

Para recordar este filme...avassalador, in ogni sensi, e passe o palavrão aqui fica um grito que passa também pelo filme no dia da libertação. Os fascistas eram diferentes, assim como os anos, nós tardámos mais, mas o dia e o mês foram os mesmos. A música aqui fica para recordar e não esquecer.

sexta-feira, abril 21, 2006

Peckimpah nunca fez papel de índio












Sam Peckimpah nunca fez papel de índio nos filmes dos brancos porque esteve sempre ocupado a fazer filmes sobre as maldades deles.
Deixou muitos filhos bastardos e poucos legítimos, entre estes, Sergio Leone.
Lembro-me que em tempos, a propósito de Fim de semana em Osterman, um crítico de que nem vale a pena lembrar o nome lhe chamou fascista. Terá sido certamente o mesmo que chamou a mesma coisa a Gillo Pontecorvo a propósito da Batalha de Argel sobre o comportamento dos franceses na Argélia, onde praticaram, à grande e à francesa, pois claro, as artes torcionárias já antes ensaiadas no Vietname, e que viriam depois a ensinar aos torturadores de todo o mundo.

Além da Quadrilha Selvagem (1969), Peckimpah realizou outros filmes memoráveis, como Major Dandee (1965), Bring me the head of Alfredo Garcia (1974), Straw Dogs (1971), Pat Garret & Billy de Kid (1973), The Convoy (1975), The Getaway (1972), Cross of Iron (1977), Ride the high country (1962) e The ballad of Cable Hogue.

Vem isto a propósito da recente edição em vídeo dos 4 títulos a bold, da qual tive conhecimento pelo Y do Público de hoje, assim como da notícia de que vai ser exibida a "2005 special edition" do "Pat Garret..." no King (dia 24, às 18h45) e Fórum Lisboa (dia 26, às 18h30).

Só lembrar ainda que a Peckimpah devemos, entre outras coisas, a utilização de planos com imagens refratadas para obter elipses de tempo e distância, assim como da câmara ultra lenta em cenas de violência. Esta última muito-muito glosada e abusada.

Convém também estar atento ao olhar das crianças sobre os adultos, presente em muitos dos seus filmes, e do como e com quem elas aprendem, e o quê. Sam Peckimpah: para ver e viciar.

quinta-feira, março 30, 2006

Spartucus vs Lolita


Stanley Kubrick realizou filmes sobre temas muito diferentes e em todos foi mestre, mesmo em Spartacus, passem as limitações que abaixo se referem. Além de grande fotógrafo, a sua primeira actividade profissional na Look, era um realizador com conhecimento profundo de todos os aspectos de cinema: produção, cinema, encenação, montagem, fotografia, direcção de actores, argumento, etc. Sempre fez os filmes que quis e como quis mesmo tendo de sair dos USA após a realização de Lolita em 1962, país onde nunca mais regressou. Curiosamente, Spartacus foi o filme anterior a este (1960) e o único filme encomendado, pois resultou da substituição de Anthony Mann, realizador de alguns blockbusters muito badalados: Cid, Os heróis de Telemark, A queda do Império Romano e Cimarron. Por isso Kubrick não gostava muito de ter o seu nome atrelado a este comboio onde entrou já em andamento. E tinha razão. Visto a estes anos de distância, para mim, que tanto gostei dele na altura, confesso, é um pesadelo se bem que menor dos que os de Anthony Mann. A monumentalidade e o empastelamento, característicos dos blockbusters da época, não faz faz parte de nenhum dos outros filmes dele. E neste há cenas penosas sobre as quais Kubrick saltaria agilmente, pois era um director que dominava o processo narrativa como poucos.

Lolita é um filme com excelentes actores, tirado de um livro em que o narrador se desfibra física e emocionalmente até à própria perdição e dos que caem na sua órbita. Um livro de Vladimir Nabokov de que Kubrick captou a alma profunda e para o qual escolheu os actotres com uma precisão mimética. Fabulosos James Mason, Shelley Winters, Sue Lion Peter Sellers. Aliás, à excepçõa de Tom Cruise de quem ele nada conseguiu, com Kubrick não havia maus actores.

quarta-feira, março 29, 2006

Americanos e remakes: Cat People



Os americanusas nunca se deram bem com remakes. E têm feito imensas (de: Boudu sauvée des eaux, À bout de soufle, Ossessione, Nosferatu, A guerra dos mundos, o prório Cat People que tem outra versão, de Robert Wise, e a última de que neste momento me lembro, King-Kong) sem que isso acrescentasse algo aos anteriores; antes pelo contrário. Não falo de cor ou efeitos especiais, já que isso não passa, na maioria das vezes, de pura pirotecnia.

É o caso do filme de Paul Scharader (argumentista de créditos firmados -Raging Bull e Taxi Driver p. ex. - e que fez um excelente Mixima), centrado nos aspectos mórbidos e eróticos, acentuados por uma cor sanguinolenta, já para não falar de Natasha Kinsky. Por sua vez, Jacques Tourneur realça o elo entre a predação animal e o instinto instinto de conservação face à predação humana, aliada esta à pura maldade ou à simples arrogância da nossa espécie face ao restante reino animal, a que também pertence. A este nível, um filme infelizmente profético. E estava-se em 1942!

O preto e branco, a roçar o expressionismo alemão, é inesquecível, sobretudo na cena da piscina. Quem se lembra dessa cena no filme de Schrader? O erotismo também está lá, mas contido e na justa medida em que não subverte a ideia-força. Em vez da morbidez está lá a sordidez humana. Mas também está o amor e a amizade entre seres diferentes.

Por alguma razão, Cat People, de 1982, é até agora o seu último filme.

quinta-feira, março 23, 2006

Casanova: para todas as idades



Lasse Hallström é um rapaz sueco da minha idade, que realizou um filme giro, Chocolate, que valeu alguns prémios, bem merecidos, a Julitte Binoche. Este é um filme da mesma onda de enternimento-aventura-comédia-drama, e cumpre. Jeremy Irons, sempre soberbo, vai com certeza ganhar também alguns prémios. Acho que vale a pena ver Veneza sem japoneses amontoados na Ponte dos Suspiros, os canais sem vaporetos nem fumarada, uma largada em balão do "presunto" Casanova (Heath Ledger) com sua amada Francesca Bruni (Sienna Miller) junto à bela igreja de San Giorgio Maggiore, reconstruída por Andrea Paladio que por se fartou de construir por naquela cidade, onde as ruas são de água, e lhe deu aquele ar quinhentista.

Claro que este Casanova, apesar de assumidamente anedótico, dá uma ideia do bon vivant que ele de facto foi: grande comilão, grande jogador, grande janota e, sobretudo, femeeiro insaciável. Pôs muita coisa em causa, mas só em Veneza, onde, por exemplo, não havia prisão por adultério, e não se via com bons olhos a intromissão do papado, como bem se nota no filme, poderia florescer um espírito tão livre como este. Mas Casanova também foi um grande escritor. Escreveu em francês, entre outros livros, o indispensável "Histoire de ma vie". Nasceu em 1725 e morreu em 1792, aos 67 anos. Preso várias vezes uma delas numa fuga descarada, à luz do dia, dos piombi (a prisão sob os telhados de chumbo do Palácio dos Dodges). Proscrito de Veneza, viveu boa parte da sua vida em Paris, inclusive durante o período da Revolução Francesa.

Aqui ficam alguns dos seus aforismos:
«
La sofferenza è insita nella natura umana; ma non soffriamo mai, o almeno molto di rado, senza nutrire la speranza della guarigione; e la speranza è un piacere.»
«
Quando si è innamorati, basta un niente per essere ridotti alla disperazione o per toccare il cielo con un dito.»
«
Le donne sono come le ciliegie: una tira l'altra.»
«
Il tiro peggiore che la fortuna possa giocare ad un uomo di spirito è metterlo alle dipendenze di uno sciocco.»
«
Lo stupido è uno sciocco che non parla, e in questo è più sopportabile dello sciocco che parla.»
«
So di aver vissuto perchè ho avuto delle sensazioni.»

Estrelas? ** (...grandes: Uma por Veneza, outra por Giacomo Casanova)

terça-feira, março 21, 2006

"O Fiel Jardineiro" e as ervas daninhas

Finalmente fui ver O Fiel Jardineiro, de Fernando Meireles, porque gostei muito de A Cidade de Deus e também quis confirmar se não tinha sido obra do acaso. O que eu senti no filme, e comentei logo à saída, é que está lá o grande realizador do filme de 2004, mas... que havia coisas ali - uma certa lamechice na relação entre Justin (Ralph Fienes) e Tessa (Rachel Weisz), de que são exemplo as aparições românticas ao viuvo do fantasma da falecida, por exemplo - que não confirmavam a secura, o realismo impiedoso, e até o humor do outro filme. Está lá a mestria, a agilidade, a segurança e a imprevisibilidade dos movimentos de câmara, para mim o que ele faz melhor, e que regressam felizmente nas cenas de África. Enfim, pareceu-me haver um espartilhamento qualquer do realizador, que acaba por tornar o filme estilisticamente desiquilibrado.

Que as minhas suspeitas não eram infundadas, aqui está a confirmação, pela própria boca do realizador, numa das respostas a uma entrevista a Kleber Mendonça Filho, em 15 de Maio de 2005.

"KMF - Você acha que chegou a contrabandear uma história de amor para dentro do thriller que queriam que você fizesse?

Fernando Meireles: A verdade é que eu não me interesso por thrillers, não era minha intenção fazer um "filme de gênero". O que me atraiu, foram três coisas: filmar na África, que achei bacana, a questão da indústria farmacêutica, tema que acompanho desde o José Serra, e a própria história de amor, que achei bonita. E o filme ficava entre as três coisas, ação, política e romance. Quando montei a primeira versão (com três horas) e via os caras das ONGs falando, ou cenas de perseguição, minha vontade era voltar pra aquele cara que estava sofrendo, e queria ver aonde ele estava indo e o que ele faria. Fui tirando, e, no fim, não foi o filme que planejamos, nem o filme que eu planejei, virando, de fato, uma história de amor. A própria Focus (distribuidora) nos EUA sentiu isso e vendeu o filme, inicialmente, como um filme sobre o amor. "

Que nos reservará Fernando Meireles para o "Intolerância 2", sequela de de Grifith e seu próximo filme?

Estrellas? *** (pelas cenas de África)

sexta-feira, março 17, 2006

Good night, and good luck!

Gostei muito deste filme do George Clooney e fiquei a perceber porque não ganhou qualquer óscar, o que até o recomenda, mas não recomenda a academia.
O filme mexe no macartismo e na sombra que ele projectou de tal modo sobre a América e Hollywwood nos anos 50 e que ainda não se desvaneceu, nem lá perto. Raríssimos são os que ainda hoje são capazes de se assumirem abertamente como socialistas e quase inexistentes os que ousam confessar-se comunistas. E muito menos os que são capazes de premiar uma interpretação, NOTÁVEL, de David Strathairn. Sem menosprezo pelo excelente trabalho de Seymour Hoffman em Capote, a personagem de Edward Murrow diz muito mais, tanto pelo que diz como pelo que cala. E sempre com a câmara em cima, como todas as personagens. Porque é um filme sobre o medo. Sobre uma sociedade onde se instituiu o medo e se espalha pelo mundo, como o Polansky ia fazer com o vampirismo, em "Por favor não me morda o pescoço", quando no final foge com a namorada e o velhote, ambos já infectados. Note-se que a HUAC/ISC (Comissão de actividades anti-americanas) só foi (terá sido?) oficialmente extinta em 1975. As figuras públicas, nomeadamente actores, que se manifestam contra a guerra do Iraque
são vítimas, ainda hoje, dessa mentalidade: "Deploramos a idéia de que pessoas conhecidas publicamente devam sofrer profissionalmente por ter a coragem de expressar suas posições. Nem mesmo o menor indício de lista negra pode ser tolerado novamente neste país", disse o SAG (Screen Actors Guild) em comunicado à imprensa em 2003.
A referência ao The Front (poster) é porque se trata de um filme de Martin Ritt, onde Woody Allen faz de testa de ferro de argumentistas proscritos. Um filme onde um dos "perseguidos" é precisamente Zero Mostel, que também esteve na lista negra.
Mas não é o aspecto político que faz um filme bom ou mau. É a sobriedade e a segurança dos autores, o ritmo contido das interpretações a dar a desmesura do medo. Os diálogos são q.b. e a câmara denuncia nos gestos mais gestos mais banais, como acender inusitadamente o isqueiro a um colega e amigo, um sinal de medo, traição ou mentira. É um filme à pele, em espaço fechado, com as pessoas cara a cara, bem próximas da camâra. Murrow em momentos chave é filmado em contrapicado, talvez numa homenagem ao Wells do Mundo a seus pés, os pés que neste caso pareciam fugir debaixo dos pés de Murrow. A prova de que é um filme intenso, pelo menos eu senti-o assim, é que quando terminou pareceu-me tratar-se de uma curta metragem. E no entanto tinha passado hora e meia!
Estrela? **** (Pela coragem, pela qualidade e pelo argumento, pela diracção de actores, fotografia. Enfim, por tudo)

quarta-feira, março 15, 2006

AO PANTUFA, AMIGO E COMPANHEIRO FIEL DOS BONS E MAUS DIAS

O coração do Pantufa parou de bater no dia 9 de Março, cerca das 17h00. Deixou-nos este grande e dedicado amigo, companheiro de 12 anos. Doze anos de ronrons, de roçar e trepar pelas pernas, de olhos azuis de porcelana, ora interrogadores, ora zangados, ora enlevados, ora turvos de ciume do mano persa Sansão, ora baixos de sono ou de vergonha por alguma maldade, ora feito um novelo, ora eriçado, ora refastelado no sofá, ora aos pés da cama a aquecer os pés ou a pisar ovos, sempre do lado da dona muito amada. Temperamental, sem medo de bicho ou de pessoa. Numa noite de vagabundagem enfrentou, à porta de casa, um buldogue, que bem ladrou, mas não lhe tocou.
Trouxe-o Pedro para a mãe, era ele ainda bébé, um outro bébé. Deixou-nos muitas saudades, a todos, um vazio que só quem perdeu bichos é capaz de compreender. Deixou-nos ainda alguns arranhões, a mim uma cicatriz de 5 centímetros na palma da minha mão direita e imensas saudades. Como todos aqueles que amamos, viverá enquento vivermos. Até um dia destes, Pantufa.

domingo, março 12, 2006

SYRIANA: This is not America!


" Atenção, States! Está na altura de iniciarmos uma nova caça às Bruxas. Uma democracia como a nossa não pode consentir que argumentistas e realizadores como Stephen Gahan, actores como Clooney (ainda por cima co-produtor), Jeffrey Wright ou Christoffer Plummer participem em coisas deste jaez. Matt Damon, vá lá, ainda mostra que há americanos bonzinhos, mas o resto daquela escumalha só lá estão para enxovalhar.
Já se sabe que os inimigos da liberdade nunca desistiram de minar os alicerces de Hollywood, às vezes até nos filmes mais e inocentes e aprentemente, só aparentemente, pró-americanos. Fica o aviso: Uncle Sam is watching You!"
Ouvido isto, digo que o caos aparente do filme é menos caótico do que parece. Aqui, se calhar como em Munique, que ainda não vi, tudo converge para amalgamar maus e bons na busca de más soluções. Fica claro que os terrorismos são devidos, de um lado, à avidez das fontes das matérias primas (it's allways the same old story); do outro, à luta desesperada e sem saída das "bestas inumanas" a quem Deus deu tais riquezas.
À parte o intermezzo Matt Damon, que parece mais para Hollywwod engolir (pois nada acrescenta ao filme: se é só para dizer que o filho do Emir é bonzinho, não havia necessidade) o filme está bem esgalhado. É um puzzle de cenas curtas (grande montagem), ao jeito impressionista, invulgar para as bandas de Los Angeles. Por isso mesmo tem causado alguma azia em tantas más consciências.
Estrelas? **** (3 pelo filme, uma pela provocação)

A CORDA: les mots et les choses


Um explêndido Hitchcock, todo filmado em huit-clos. A ver e a rever, não só pelas interpretações, incluindo a de James Stewart, como pelo tratamento da luz e da côr, pelo que diz e pelo que significa. A acção decorre ao longo de um único dia. Do paralelo entre o crescendo do suspense e o aproximar da noite resulta uma fusão orgânica total onde tudo se amalgama. Bem se sabe como Hitch considerava, talvez na senda do experimentalismo de Kulechov, os actores como adereços, mas a verdade é que com ele não há más interpretações: nem under nem overacting.
É também, além de um policial cínico e impiedoso, uma parábola assustadora sobre o poder da palavra. O filme é de 1948, e os clarins do macartismo, que iriam soar apartir de 1950, já estavam a ser preparados e oleados.

Aqui fica, para todos os mexem descuidadamente com as palavras, e também para todos os que amam o cinema e cuidam das palavras.

quarta-feira, março 08, 2006

Esta noite na RTP1: O Interstício



Numa crise de masoquismo imprevista, dei por mim a comtemplar o Fio do Horizonte, de onde recolhi esta pérola preciosa: A legitimidade cultural é um espaço intersticial entre o espaço das posições sociais e o espaço dos gostos. Trata-se de uma citação de EPC, dos Erics Macé e Maigret, autores de "Pensar as Médias Culturas".
De facto, só mesmo o nosso Maigret cultural, para descobrir uma destas.
Por acaso e coincidência, descobri, umas quantas páginas à frente, que esta noite, às 12h3o (mais hora, nenos hora), vamos ter na RT1 "Toda a nudez será serrá castigada", do brasileiro Arnaldo Jabor".
Não vi o filme, nem sei se chegou mesmo a passar em Portugal. Mas foi um filme de que sempre li e ouvi coisas boas, que ganhou o Urso de Prata do Festival de Berlim de 1973, e tem música de Piazzola.
É um interstício apenas, mas pode conferir, a quem o vir, alguma legitimidade cultural. Não vou vê-lo por isso, mas, já agora, também não estou para andar fora de lei, pois tenho a pena de um mês sem carta de condução suspensa por seis meses. Até lá...

domingo, março 05, 2006

Descubra as diferenças

Em 1979 Hal Ashby realizou uma soberba comédia, em que Peter Sellers protagoniza um idiota que os média levam ao colo até à presidência dos USA. Vejam ou revejam o filme, talvez exista nos videoclubes, e descubram as diferenças.

quinta-feira, março 02, 2006

COISA RUIM ou má?


Por devoção e obrigação, lá fui ver mais um filme português, bem estrelado, como manda a patrioteira crítica. Para ajudar o cinema português, pois claro, Paulo Branco apostou no terror rural, como chave para o sucesso. Se a intenção é angariar carcanhol para produzir filmes de qualidade, tudo bem. John Huston , Orson Wells e outros com mais pergaminhos também fizeram fretes para poderem continuar a fazer o seu cinema.

Vão ver, se querem emoções arrepiantes. Estão lá os ingredientes todos: ambiente soturno, rural, pedregoso e alcantilado. Um casarão de meter medo, um padre modernaço e outro velhote e exorcista. Há barulhos inexplicáveis, caras a espreitarem às janelas, cortejos fúnebres a passar pelo cruzamento dos enforcados, olhares desconfiados dos aldeões, citadinos cépticos e arrogantes a abater, exorcismos, sessões espíritas, aparições de injustiçados, ódios ancestrais, incarnações, morte, licantropia, ufa! Nem o Kubrick conseguiu meter tanta coisa no Shinning. Muito menos o Corman. Para meter tudo, teve de fazer imensos filmes.

Portanto, tragam-nos o Roger Corman de volta: O fosso e o pêndulo, Berenice, O Terror, O Corvo, A lojinha dos horrores, A máscara da morte vermelha, a grande maioria deles com o inesquecível Vincent Price.

Os actores fazem o que podem e o realizador também. A encomenda era aquela, e tá no ir, que há que pagar ao padeiro. E pensar eu que "A Costa dos Múrmúrios", depois de uma estreia em cheio, foi ignorado pelo grande público.

Tragam-me a Margarida Cardoso de volta, já!

Hoje não há estrelas. As núvens esconderam-nas.

http://www.coisaruim.com/

domingo, fevereiro 26, 2006

Los Olvidadaos











Deste filme de Buñuel -mexicano, amigo de Lorca e de Dali- Palma de Ouro de Cannes, 2005, para lembrar que há cinema - Muito, tão bom e melhor do que 99% do cinema americano que nos invade. Vamos todos ver os óscares e os oscarizáveis. Por que há pouco cinema para além desse?, será? Ou por não irmos ver o pouco que por cá passa?
Mea culpa,
pois me deixo arrastar pela onda. Ora, esses filmes que olvidamos são em regra geral muito bons, por que, caso contrário, nem cá chegavam. Imaginem o que seria se aplicassem o mesmo critério ao cinema americano! Ficámos com o 1% bom, o que era óptimo: não arriscávamos tantos barretes.

A propósito, vou só lembrar 3 filmes que passaram por cá há pouco e pelos quais se passou como cão por vinha vindimada:

1 - A Dama de Honor (La Demoiselle D'honeur), de Claude Chabrol, uma obcessão (à Match Point) levada ao extremo, louca, tirada de um livro de Ruth Rendell, só podia..., comBenoit Maginel e Laura Smet;

2 - O Sétimo Dia, de Carlos Saura, um filme sobre o ódio. Um ódio irracional, com danos colaterais e tudo. Dois ódios antigos entre duas famílias. Não há bons e maus: todas as personagens são protagonistas nesta saga trágica. Não há actores a enfeitar para fazerem brilhar a special guest star. É um filme, de um grande realizador (Tango, Goya, Ana e os Lobos, Pipermint Frappé e muitos outros.

3 - O Pântano (La Ciénaga) um filme, de Lucrecia Martel, uma realizadora argentina, que mesmo assim se aguentou algum tempo e até voltou à exibição em tempos recentes. O pântano é a situação de uma família da alta burguesia argentina. De facto, aquela casa, aquela piscina, aquele racismo atávico dos hispano-americanos contra os índios tresanda a atoleiro social. Um filme duro de cores dissolutas, como o ambiente, com duas actrizes fenomenais: Mercedes Morán e Graciela Borges.

Para filmes esquecidos, o Coro dos Caídos. Ainda não vai como eu gostava, mas estou à espera que quem sabe cumpra a promessa...


http://ignatz.alojamentos7.com/amandio/ZAfonsoParedesLGoes_CoroCaidos.mp3

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

CAPOTE, a quente


O que há de
comum entre
estas quatro
imagens:
três filmes e dois escritores?
Para quem não viu, Harper Lee acompanhou Truman Capote durante as pesquisas sobre o massacre de uma família no Kansas em 1959 e escreveu o livro "To Kill a Mocking Bird" (1963), que deu um filme, sublime de ternura, de Robert Mulligan. "Capote" centra-se no período e nas circunstâncias que deram origem ao livro "In cold blood", de Truman Capote, que Richard Brooks adaptou ao cinema em 1967. Os filmes de 63 e 67 foram nomeados para os óscares de melhor realização, que seriam ganhos, respectivamente por Tony Richardson, com "Tom Jones", e Mike Nichols, com "The Graduate", dois filmes respeitáveis e de culto.
"Capote" vai com certeza ter óscares, pelo menos está nomeado para uma série deles: melhor filme, melhor actor, melhor secundário e melhor argumento. Os óscares fizeram-se para promover e vender o cinema dos USA nos USA, ou os vendáveis lá e no mundo .
Philip Hoffman não vai passar a ser melhor actor do que já é, mas finalmente irá deixar de ser o eterno secundário, premiado e muito nomeado, apesar de já ter ganho um como melhor actor no Festival de Vancouver.
Do realizador Bennet Miller havia até agora apenas um episódio de "Charlie Rose Show" para TV e "The cruise"; pelas críticas, um documentário interessante sobre Nova Iorque. É pouco? É o suficiente para fazer uma entrada triunfal num filme de grande orçamento.
Mas Bennet não se deixou dominar pelos meios que teve à disposição e construiu um filme onde a única exuberância é a de Capote/Seymour na parte inicial do filme. Exuberância que vai definhando à medida que ele escava as circunstâncias do crime, as motivações dos criminosos e as raízes do acto, sobretudo de Perry (um Clifton Collins Jr., à Montgomery Clift-on). A qualidade da interpretação de Seymour revela-se no modo imperceptível como decresce de exuberância, até ao abatimento emocional, quando tudo acaba, até o fervor da escrita. A própria cor, sempre esbatida, ensombrece à medida que o filme avança. Os silêncios e os diálogos são os os grandes tensores. A própria cena final prima pela contenção. Está tudo dito, tudo feito e Capote encerra-se no seu labirinto. A câmara, mesmo quando faz uma panorâmica curta e trémula sobre os trémulos condenados, já vestidos com os atavios do ritual da execução, não se serve a si, serve o filme. A consciência de que o que separa falhados de triunfadores, nascidos e criados em circunstâncias idênticas, é tão só a saída pela porta dos fundos ou da frente (metáfora de Capote), devia-nos fazer pensar - a todos - no papel do acaso nas nossa vidas.
Enfim, um filme muito bom, de um realizador muito bom. A não perder.
Estrelas? **** (Falta uma, pelo crime de quase nos fazer esquecer o filme de Brooks)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

De CASH, ONE: a música e a letra








http://ignatz.alojamentos7.com/amandio/Cash_one.mp3

Da colectânea Unhearted, ONE

Lamento não saber ainda postar música de uma maneira mais amigável. Mas acho que vale a pena.

"One"
Is it getting better
Or do you feel the same
Will it make it easier on you now
If you've got someone to blame

You said one love
One life
When its one need
In the night
One love we get to share it
It leaves you baby if you don't care for it

Did i disappoint you
Or leave a bad taste in your mouth
You act like you never had love
And you want me to go without

Well its too late
Tonight
To drag the past out
Into the light
We're one but we're not the same
We get to carry each other
Carry each other
One

Have you come here for forgiveness
Have you come to raise the dead
Have you come here to pray Jesus
To the lepers in your head

Did i ask too much
More than a lot
You gave me nothing now
Its all i got
We're one but we're not the same
Well we hurt each other and we're doing it again

You said love is a temple
Love the higher law
Love is a temple
Love the higher law

You ask me to enter
But then you make me crawl
I cant be hold in onTo what you've got
When all you've got is hurt

One love
One blood
One life
You you've got to do what you should
One life with each other
Sister

Brothers
One life but we're not the same
We get to carry each other
Carry each other
One

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Brockeback Mountain: o Segredo


Basta ver a foto para adivinhar o segredo que existe entre Del-Mar e Twist: eles cometeram um crime e estão envergonhados.
Diga-se que, como história, não é original, só que, neste caso, o crime foi cometido e reincidido ene vezes num cenário de bilhete postal, embora agreste: até neva em Agosto.
Rodeados de ovelhas e montanhas, cercados por desfiladeiros, rios tumultuosos, coiotes, alces e ursos, tudo aproxima estes cavaleiros olvidados da grande democracia estado-unidense (que raio de país que nem nome tem!) e os move a perpetrarem o crime horrendo e, como todos os criminosos, a ocultá-lo, inclusive das esposas, amigos e conhecidos, como deve fazer todo o adúltero que se preze. Um mais atrevido (Twist), outro introvertido (Del-Mar), tudo faz deles partners in crime ideais. Já muitos realizadores trataram o tema, alguns, como Fassbinder e Almodovar, de uma maneira menos bela, menos suave, mas, por isso mesmo, mais crua, implacável e despudorada.
Porque nos States ainda se ensina o criacionismo, Ang Lee tomou todas as precauções, e fez muito bem.
Planos a régua e esquadro, encenação rigorosa, fotografia fuji (cores não saturadas, nem nos adereços), uma história contada como mandam as regras: cenário do crime, desenvolvimento piano, forte, molto forte, fortíssimo, piano, pianíssimo, The End.
Os actores dão o que podem dar, embora Jake Gyllenhall seja brilhante, também porque a personagem lho permite. Já Heath Ledger talvez pudesse fazer melhor, e este é o meu senão. Explico-me: sente-se-lhe falta de espontaneidade, tanto na fala como nos grunhidos, e suspeito que a culpa não é dele. Enfim, um filme correcto em todos os aspectos, quase perfeito. Um filme bom para os óscares, mas um filme demasiado correcto para o meu gosto. É tudo demasiado óptimo, mas a verdade é que não há um sopro de genialidade em tudo aquilo, o que é o normal para óscar, embora haja excepções, sobretudo de filmes estrangeiros. Por exemplo, o próprio Almodovar, com "Tudo sobre a minha mãe".
Estrelas?: *** Porque o respeito cego do cânone estraga a arte e cega quem a vê

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Walk the line

"Anda na linha, meu!" é um título óptimo para este filme, tirado da música de Johnny Cash, I walk the line (Eu ando na linha!). De facto, não é o filme que Johnny Cash merece, embora trate daquilo que duas mulheres procuraram fazer da vida dele.
Uma, Vivian Cash, procurou reduzi-lo ao homo galinacius, que tinha de cuidar do ninho, da galinha e dos pintainhos; a outra, June Carter, fê-lo entrar na linha, mas para que voltasse a ser de novo o Johnny Cash song writer and singer: a walking contradition, como canta Kris Kristoferson, mas sem anfetaminas. Não é o argumento em si que ponho em causa, mas a lamechice.
Há uma coisa em cinema que se chama elipse, por isso não havia necessidade de perder tanto tempo com a primeira mulher, nem com as incompatibilidades dela com a carreira dele; não era necessário matraquilhar tantos amuos entre Cash e June; também não era necessário repetir tantas vezes o Ring of fire, quando Cash cantou tantas canções. Pena é James Mangold, o realizador, não se ter lembrado, por exemplo de One (ouçam o extracto do link), um tributo a June, que confessou, já no final da vida a dois: "He's a very rare man, a very good man, and I've had a good life with him. I'm proud to be walking in the wake of Johnny's fame." Confesso que me comovi várias vezes durante a projecção, mas apenas por me fazer evocar a voz que ele foi de todos os off the line ressacados da grande depressão, nos quais também se incluía: uma voz profunda, grave, que ressoa e nos envolve como um líquido amniótico, e nos faz dobrar sobre nós mesmos como bichinhos de conta. E aqui residiu a minha maior decepção. Joaquin Phoenix, o actor que tenta cantar como Cash, está a milhas, não em termos de qualidade, mas de semelhança; sobre a voz de Reese Whiterspoon, não me pronuncio porque nunca ouvi nenhuma canção June Carter, nem sequer com Cash. Mangold desculpa-se com a boca de que quem quiser ouvir Johnny Cash não precisa de ver o filme. O problema é que o homem e a voz são ONE. Eu admito a dificuldade, mas, como é difícil fazer gostar deste filme quem não gosta ou desconheça Cash, talvez tivesse sido preferível fazer karaok com as próprias canções dele. Das vozes "de" Elvis, Jerry Lee Lewis e Orbison não vem mal ao mundo, por funcionarem mais como damas de honor de Cash, do que deles mesmos.
Destaco as interpretações de Robert Patrick, o pai de Cash, de Reese Whitherspoon e também de Joaquin Phoenix, que não tem culpa da maldade que lhe fizeram. Destaco ainda, para não ser injusto, a cena da sessão na prisão de Folsom. Não sei porquê, fez-me lembrar "The Blues Brothers", de John Landis... E isso vale bem uma estrela; as outras duas são por Johnny Cash, ele mesmo. ***

One:
http://www.last.fm/music/Johnny+Cash/_/One

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Os 10 Mandamentos do kinófilo

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

É procurar no cinema, na videoteca, pedir emprestado a um amigo. É um filme não apenas sobre uma mulher, mas sobre toda uma família e toda aquela sociedade. Mas também é para homens: para os pais, e os filhos que todos somos. Mike Leigh não julga ninguém. Todas as personagens são tratadas com atenção e não como meros adereços que rodeiam Vera Drake (óscar 2005 de Imelda Staunton para a melhor actriz). Tudo gira, é certo, à volta dela, porque a sua, bondade e simplicidade tudo polariza. É um filme de emoções contidas e silêncios que gritam. Simples e autêntico, como Vera. Cru e directo, sem rodriguinhos nem fundos musicais manipuladores: um filme para ver e rever. Estrelas? *****

Match Point : Allen em todo o seu esplendor




http://www.oscar.com/video/index.html?channel=NominatedFilms&clip=2547
A crítica já tinha liquidado Woody Allen, e ei-lo de regresso com um filme tão imprevisto que os deixou a todos de cara à banda. Não é o Woody neurasténico e obcecado sexual que eu nunca reneguei e de quem sempre fui incondicional. Para mim não há filmes maus de Woody; há filmes de que gosto menos. Allen criou a personagem de si, tal como Chaplin criou criou a dele. Com ela fez dezenas de curtas médias e longas metragens, sem nunca ninguém lhe ir mão. Só foram, quando abandonou Charlot. Mas não tiveram coragem para ir, quando fez o derradeiro filme, o penoso Condessa de Hong-Kong.
Allen é um mestre da narrativa, da sequência e da direcção de actores (sabe dirigir os seus, os de estimação, e os outros, como neste volta a comprovar). Mas o homem Woody, atenção, está também - e muito - em Match Point: o argumento é dele. Está na obcessão amorosa de Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers). Filmado em Londres (sem fog nem "céu plúmbeo"), com actores ingleses, à excepção de Scarlett Johanssen (Nola Rice no filme), portanto sem Woody, é a prova provada, se alguém a necessitasse, de que Interiors não foi obra de acaso, nem Woody Allen está esquecido.
A trama policial acompanha o ritmo dos sentimentos sem acelerações, travagens bruscas ou as manobras perigosas em que esbarram com frequência tantos e tantos realizadores. Interiors, disse a crítica da altura, era bergmaniano. Match Point será o quê? Para mim, é Woody Allen. Estrelas? Todas:
*****